Muita coisa do universo real e concreto já foi simbolizada no mundo plástico, mas algumas nunca nos cansam seja porque seus temas são tão sedutores para a natureza humana, seja pelo modo subversivo como são apresentados, elas nos retiram da cotidiana condição mecanicista. Tanto na pintura como nos objetos, e esses objetos identificam neles o mesmo discurso que apresenta na pintura. São obras de dualidade e oposição como àquelas, onde existe um forte diálogo entre a ideia do sólido e do líquido; entre a luz e a sombra; entre o visível e o imaginado. Nesses objetos você substituiu a representação gráfica da água pela sua representação simbólica, o espelho.

 

Você trocou o fluxo caótico e incontrolável do líquido pela tranquilidade imóvel do vidro. Além disso, o elemento altamente sedutor de suas telas que é o espaço escurecido do vazio resultante do encontro das pedras representadas, você transformou em um casamento entre a sombra natural da pedra grafada e seu reflexo do espelho. Nesse jogo com a memória visual do espectador você brinca, colocando-o dentro do universo da mitologia clássica. Resgatando de modo indireto a narrativa de Narciso, você coloca os objetos no nível do chão, fazendo com que o espectador se apaixone tanto pelo mágico objeto disposto ao seu deleite quanto pela sua própria imagem refletida no universo da calmaria, fazendo-o assim seduzido, sair de sua condição estática, e se abaixar para se deleitar ainda mais com os elementos que chamam sua atenção. Mas para não fazer Narciso cair de amores por si mesmo e mergulhar em demasia no universo mental e emocional que ele mesmo se deixou apaixonar, você interfere de forma aguda no real, transformando a materialidade da pedra em uma representação bidimensional, como se assim destruísse os limites e certezas pré-concebidas pelo observador do mundo real e o projetual.

 

Finalmente, você surpreende o observador pela inversão de ideias, como a fazer com que perceba todo esse deleite visual é somente uma representação de conceitos existentes no concreto mundo real.

 

Rosemeire Odahara

Julia Ishida, pintora. Carregando consigo tudo o que o título traz, consegue do público aquilo que a arte já quase desistiu de pedir: tempo. Tentar respirar o ar denso do horizonte inexistente da paisagem da pedra peso água movimento vertigem tontura individualidade solidão universalidade.

 

A paisagem como relação como instabilidade como passagem, mutante com um peso insustentável. Ser sorvido, tragado pelo gigante que é toda natureza …. do homem. Tontura do que é toda natureza do homem. Se ausentar de si pra só se identificar com a imagem da lacuna que se forma entre nós e o universo de interiores que é o trabalho de Julia. Material demais pra ser etéreo, rouba a possibilidade do peso fora dele, deixa que sejamos só imaterialidade pra podermos aguentar os espelhos que se tornam essas imagens construídas com tanta certeza.

Juliana Gisi

“OU”

 

Através das pinturas, procuro atingir o centro da minha identidade, o que é ser oriental pra mim, de certo modo faço uma aproximação com este universo. Para tanto, preciso seguir meu caminho, solitária, meditativa, renunciando ao ser subjetivo e ao mundo subjetivo para conquistar uma imagem que exista além da apreensão e compreensão comum, tátil, da realidade, em um sentido de libertação. Pintar para mim, se identifica com a sensação de libertação, de transformação e depuração da minha condição, uma condição de contemplação que faz parte dessa engrenagem.

A paisagem como tema não foi mera escolha, mas quase uma imposição de uma paisagem imperativa e decisiva, enquanto eu insistia na figura humana. Quanto mais insistia em pitar a figura humana, mais a paisagem tomava conta dos corpos-montanhas, comprimidos em cores densas e expelidos para o horizonte. Quando finalmente assumi a paisagem, os trabalhos começaram a tomar a forma e o conteúdo que buscava nos anteriores, com muito mais eficiência. Minha paisagem normalmente é feita de pedras e águas, fragmentos agigantados desse choque eterno. Crio espaços, estabeleço informações e tento criar sensações de tempo e vertigem. Sem dar valores a elas, o equilíbrio ou a falta dele tem valores iguais dentro da obra. Aí também tento fugir do maniqueísmo ocidental, deixando que uma coisa exista dentro da outra. Essa sensação de vertigem é o mais importante para mim na pintura, pois reflete meu medo, minha vertigem ante a própria arte; esse mundo onde não se tem certeza onde firma o pé, nem onde se segurar, para onde se é levado, tragado; o interior da arte, onde ela brota, a matéria da qual ela é feita, a razão e fim de sua existência, quando a arte é universal por falar do todo quando nasce do particular, que é o mais profundo interior da própria arte.

Minha intenção é fazer com que o olhar sobre a paisagem seja repensado, não quero discutir a representação da paisagem, não a quero como fim, quero tê-la como recurso, um meio pelo qual o observador seja levado a experimentar sensações. Ora pelo realismo e conforto que sugerem, ora pelo gigantismo e incerteza.

Construo a pintura, reconstruindo a paisagem com muita materialidade, peso, com essa matéria que existe como presença física (tinta à óleo) e ao mesmo tempo simula algo que pode existir, envolve os elementos, se mostra presente porque recobre tudo com a mesma força, como um único elemento dentro da pintura. Estou interessada na matéria que é, não na matéria que é veículo, porque o veículo é a paisagem. Não faço referência direta à pedra que realmente existe, me utilizo da ideia de pedra para criar a pedra que vai existir dentro do quadro, que vai agir em um espaço articulado para que o peso dado a ela faça brotar no observador que contempla a sensação que será o resultado das associações que o quadro desencadeará.

 

Julia Ishida

Até que fura

 

Julia Ishida há muito tempo vêm pesquisando a superfície das pedras. Mas não somente a superfície senão as curvas que estas impõem ao transcurso das águas, em pinturas, na sua maioria de larga escala. São imagens verticais de acontecimentos horizontais: rompimentos aleatórios de um percurso em direção ao mar. Não nos deixemos enganar, de alguma forma esses encontros e esses rompimentos sempre têm algo de violento. Há uma natureza intranquila no trabalho de Julia.

 

Em Traços para Transpor somos apresentados a uma nova face da antiga busca. Aqui a água não está. Ao menos não podemos vê-la. Mas podemos (será abuso dizer?) perceber que resta algo da ordem dessa água, capaz de transformar a pedra em matéria viva e mole. Também não há mais cor, nem mais espaço: de uma forma estranha, passamos da superfície para o dentro. Uma experiência de tempo, muitas horas na ponta do lápis, dividida agora entre a execução e a possessão da obra.

 

Keila Kern