SOBRE A PINTURA

 

Através das pinturas, procuro atingir o centro da minha identidade, o que é ser oriental  pra mim, de certo modo faço uma aproximação com este universo. Para tanto, preciso seguir meu caminho, solitária, meditativa, renunciando ao ser subjetivo e ao mundo subjetivo para conquistar uma imagem que exista além da apreensão e compreensão comum, tátil, da realidade, em um sentido de libertação. Pintar para mim, se identifica com a sensação de libertação, de transformação e depuração da minha condição, uma condição de contemplação que faz parte dessa engrenagem.

A paisagem como tema não foi mera escolha, mas quase uma imposição de uma paisagem imperativa e decisiva, enquanto eu insistia na figura humana. Quanto mais insistia em pitar a figura humana, mais a paisagem tomava conta dos corpos-montanhas, comprimidos em cores densas e expelidos para o horizonte. Quando finalmente assumi a paisagem, os trabalhos começaram a tomar a forma e o conteúdo que buscava nos anteriores, com muito mais eficiência. Minha paisagem normalmente é feita de pedras e águas, fragmentos agigantados desse choque eterno. Crio espaços, estabeleço informações e tento criar sensações de tempo e vertigem. Sem dar valores a elas, o equilíbrio ou a falta dele tem valores iguais dentro da obra. Aí também tento fugir do maniqueísmo ocidental, deixando que uma coisa exista dentro da outra. Essa sensação de vertigem é o mais importante para mim na pintura, pois reflete meu medo, minha vertigem ante a própria arte; esse mundo onde não se tem certeza onde firma o pé, nem onde se segurar, para onde se é levado, tragado; o interior da arte, onde ela brota, a matéria da qual ela é feita, a razão e fim de sua existência, quando a arte é universal por falar do todo quando nasce do particular, que é o mais profundo interior da própria arte.

Minha intenção é fazer com que o olhar sobre a paisagem seja repensado, não quero discutir a representação da paisagem, não a quero como fim, quero tê-la como recurso, um meio pelo qual o observador seja levado a experimentar sensações. Ora pelo realismo e conforto que sugerem, ora pelo gigantismo e incerteza.

Construo a pintura, reconstruindo a paisagem com muita materialidade, peso, com  essa matéria que existe como presença física (tinta à óleo) e ao mesmo tempo simula algo que pode existir, envolve os elementos, se mostra presente porque recobre tudo com a mesma força, como um único elemento dentro da pintura. Estou interessada na matéria que é, não na matéria que é veículo, porque o veículo é a paisagem. Não faço referência direta à pedra que realmente existe, me utilizo da ideia de pedra para criar a pedra que vai existir dentro do quadro, que vai agir em um espaço articulado para que o peso dado a ela faça brotar no observador que contempla a sensação que será o resultado das associações que o quadro desencadeará.

 

 

Julia Ishida